quarta-feira, 20 de agosto de 2025

FALSIDADE

 

FALSIDADE


Uma amiga me pediu para escrever sobre falsidade. A mente, traiçoeira, logo fugiu para idade. Pensei nas criancinhas, dessas que não têm maldade, cujo sorriso é um mapa do tesouro com o "X" marcando o lugar do coração. Lembrei das palavras do Mestre: "Deixai vir a mim as criancinhas, pois delas é o reino do céu." Um reino onde as palavras significam o que são, sem dicionários para explicar o amor.


Corri ao dicionário, buscando o antônimo exato daquela sombra. Falsidade. Encontrei "veracidade", "sinceridade". Termos secos, técnicos, que não cheiram a nada. Fiquei decepcionado. Parecia que o livro todo estava confuso, embaralhando definições de almas com um dicionário interno desregulado.


O mundo precisava de uma nova edição, revisada e ampliada. E eu, se pudesse, reescreveria aquelas páginas gastas. Revisaria "veracidade" a tinta vermelha e, na margem, com letra de criança, escreveria LEALDADE.


Eis que a vida, poetisa maior, ditou o verbete.


Num canto de calçada, o mundo se reduzia. Um velhinho, mapa de rugas contando histórias de solidão, deitado sobre um colchão de papelão. Ao lado, sua carroça de papel, cujo motor é a força da mão e a teimosia de existir. Em seu colo, um rabo abanava preso a um corpo peludo, um lindo e alegre cachorrinho. Dois reis destronados, donos de um império de afeto.


Então, o asfalto rugiu. Um lindo carrão, blindado contra a realidade, parou. Dele desceu um furacão de perfume francês, um cheiro tão forte que quase apagou o cheiro do mundo. Uma senhora muito rica, envolta em fios de ouro e tecidos que custam mais que todos os sonhos daquela calçada.


O valor daquele frasco, pensei, daria para comprar ração para o resto da vida do cão. Uma vida inteira de lealdade, trocada por algumas gotas de aroma que não conseguem mascarar o vazio.


Ela olhou, apontou. Disse: "Que gracinha!" A palavra, oca, ecoou contra o muro e se esvaiu no vento, um elogio não ao conjunto, mas ao acessório fofo. Ela passou. Levou o perfume. Levou o elogio vazio. Deixou a falsidade pairando no ar, como um gás pesado e doce.


E então, o verbete se completou.


O cachorrinho não leu dicionários. Não entendeu de perfumes ou carros. Ele levantou o focinho, observou a fina rainha que partiu, e então… enterrou sua cabeça no colo surrado do velhinho. Em um ato singelo, profundo e definitivo, o amou.


Ali, naquela calçada, estava a definição viva. O antônimo de falsidade não é uma palavra. É um gesto. É a lealdade que aquece o colo mais frio, que escolhe o afeto sobre o conforto, que abana o rabo mesmo quando o mundo todo passa ao largo, sem ver os reis que ali habitam.


O dicionário estava mesmo errado. E o cachorro, sábio professor de uma única cátedra, o reescreveu com um simples, e eterno, ato de amor.


Paulo Franco.




Nenhum comentário:

Postar um comentário

LEITURA

LEITURA

 
Real Time Web Analytics